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quinta-feira, 6 de outubro de 2011

“Bruta flor do querer”


 Um dia, sem querer, por acaso, e estão desfeitos nossos velhos conceitos.
Sem a mais justa adequação, sem Sim e estando ausente também o Não, ficamos com o Talvez e com a única certeza de que o Incerto é o que move montanhas.
No que queriam Vida, demos Morte. No que queriam Amor, demos as costas. Quando quiseram Martírio, servimos Coragem. Quando exigiram Persistência, Covardia.
Estamos sempre a milhas da flor bruta do querer, flor amarela e selvagem. Porque também o somos: ... amarelos e selvagens.
Ou selvagens e amarelos... E ainda rubros e brandos. Estamos sempre a milhas de saciar nossa fome e de dar de beber a quem tem sede de nós numa caixa de música. Porque nossa fome é infinita e a tal caixa é pequena demais para nossas dores e desequilíbrios, por isso dançamos fora dela. Nada presumido ou pressuposto. Tudo em entrelinhas que libertam sempre o Sempre de nosso não quando da exigência do Sim.
Apenas crianças levadas, mal-criadas, a sonegarem licença para o vovô. Apenas velhos rabujentos que sentem prazer ao atrapalharem o programa dos netos jovens. Apenas filhos envergonhando a mãe na fila do consultório. Apenas a vaidade de mostrar a perfeição em um rosto feio depois de uma queda de bicicleta. Apenas as penas que há em sequer sabermos quem somos. Tudo há muito misturado para definir geração...
Se querem firmeza, saudade. Se querem saudade, indiferença. Se querem brilho, opaco. Se exigem compromisso, desleixo. Não damos o que nos pedem. Somos apenas o desequilíbrio e o avesso do que queremos ser.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

 Ser ou não ser: Eis a questão!



Não! Androginia não surgiu na década de 70, com David Bowie e outras personalidades marcantes do Rock nem na década de 90 com a “transgressão” da moda nem nos nossos dias com o “Papai, não sei o que quero comer!” de alguns Emos com spikes e muito glitter.
Em O Banquete, de Platão [1], Aristófanes relata o surgimento dos diferentes sexos; e o Androgynos (Andro – Homem – e Gynos – Mulher) seria uma criatura mítica proto-humana metade homem, metade mulher, que foi separado devido a um conflito com os deuses. Em corpos diferentes, as duas criaturas a partir de então buscariam a outra metade de sua alma, que estaria em sua outra metade, de sexo oposto. Uma – no mínimo – interessante estória para se explicar a origem da Heterossexualidade e o sentimentalismo contido na ideia de “Almas Gêmeas”, que, pela lógica, não deveria ter esse nome. Mas isso é outra história.
Então... Na Antiguidade Clássica, como o fez Platão, por exemplo, falava-se a respeito de Homossexuais (Nas figuras de Andros e Gynos) e dos Heterossexuais (Na figura das metades separadas do Androgynos); e, portanto, da existência de três sexos, não de dois, como atualmente. Contudo, Androginia, considerando a psicologia de Carlos Jung e os estudos de Carlos Dugos, seria muito mais a unidade absoluta do ser integral do que uma apelação ao conceito de ser feminino e ser masculino fundidos.
Todos teriam, sendo assim, uma “essência” masculina e outra feminina, às quais Jung (1997) [2] nomeou Ânimus e Ânima, respectivamente. Logo, Androginia seria uma condição física e psíquica de um indivíduo que não se identifica como macho nem como fêmea, mas como um híbrido, que estaria longe de ser associado a um Homossexual ou Transexual, já que o termo não estabeleceria vínculos tão intensos com sexualidade.
Mas como atualmente as coisas são outras, como temos quase sempre “cópias distorcidas do real”, é muito difícil encontrarmos Andróginos reais, embora se fale na existência de uns tantos mil por aí.
Carlos Dugos, em seu ensaio Androginia, Hermafroditismo e a Hibridação Social dos Sexos, datado de 2001, relata que as condições sociais e até econômicas dos nossos dias contribuem com uma perda de identidade do ser feminino e do masculino. Sob o postulado igualitário a que aspiram Homens e Mulheres hodiernos, aparece a uniformização dos indivíduos, “independentemente dos seus sexos, estabelecendo um código de direitos e deveres que a todos abrange e que, sob pretexto de uma dignificação coletiva, escamoteia a dignidade intrínseca de cada sexo” (DUGOS, 2001) [3]. Segundo o estudioso:

A anulação sistemática das diferenças em nome de uma igualdade uniformizante, cuja veracidade e oportunidade carecem ser provadas pela própria natureza das coisas, conduz, a médio ou longo prazo, à morte do fascínio pela diferença, impulso ancestral do amor e do conhecimento. A manipulação genética, que prescinde do amor, mesmo que meramente erótico, para a formação do novo ser, prepara o momento em que o mais respeitado e cantado dos sentimentos humanos será entendido como uma abstracção mitológica, absolutamente inútil para a conservação da espécie (DUGOS, 2001) [3].


Não é à toa que se encontre comumente nas mais diversas mídias apelos como “Androginia está em alta. Veja como apostar na tendência.”. Não é à toa que, ao sairmos por aí, mesmo que “de bobeira”, seja tão fácil encontrar um projeto de Humanóide caracterizado de forma a que jamais arrisquemos dizer se tratar de um homem ou de uma mulher. Não será sem explicação encontrarmos cada vez mais, partindo das passarelas, rapazinhos amarrando seus pintos por alguns dólares e título de “Exótico”. E absolutamente “compreensível” vir algumas mocinhas engravatadas, com seu novo corte moicano, cara de mau e a boa “Deixei meu pinto em casa hoje.” para conquistar um garoto – seu semelhante – numa balada de sábado à noite.
Viva a vida social da Pós-Modernidade! Viva a total perda de identidade em nome de uma ilusão de Liberdade!


[1] PLATÃO. O Banquete. Lisboa: Edições 70, 1991.
[2] JUNG, Carl Gustav. O Homem e seus Símbolos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1977.
[3] DUGOS, Carlos. Androginia, Hermafroditismo e a Hibridação Social dos Sexos. 2001. Disponível em: http://www.triplov.com/alquimias/alq01dug.htm. Acesso em: 04 jul. 2011.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Os bárbaros Heróis... Opa! Os heróis Bárbaros do nosso tempo.



Li, recentemente, um texto chamado “A comédia do grotesco”, de Sandro Alex Simões. Um amigo, chamado Balta, me mostrou. Inclusive, pelo MSN, comentamos um pouco acerca do conteúdo do texto daquele cara, que fora seu professor.
O que comentamos sobre o tal discurso não chegou ao campo da linguagem, intertextualidade, ou coisa do tipo; nada da área teórica dos estudos incautos e blá, blá, blás, mas sobre aquilo que tinha a ver com os nossos dias.
Uma palavra que circunda o texto discretamente é Democracia. Ele mostra de maneira insuspeita que é sinistra a forma como retardados de plantão tomaram para si o significado da palavra e viveram-no, conscientemente ou não. Ele até menciona o massacre do Realengo, que chocou o Rio de Janeiro no último dia 07.
Contudo, minha intenção aqui não é, como diz minha avó, “assuntar” sobre o texto do professor, mas trazer à tona um ponto do discurso que não foi desenvolvido diretamente: o protagonista do tal massacre.
Ok, ok, ele não foi o primeiro a “brincar” de “cangaceiro” dentro de uma instituição de ensino. Pode, sim, ter achado “bonito” o que outros “coitados vítimas de bullying”, ou os tipos psicopatas fizeram e quis fazer também, para sair na Globo e em jornais internacionais. Entretanto, se ele foi o primeiro ou o último, não importa. Ele virou noticiário constante. As mídias esqueceram de dar atenção a tudo e, na TV, não se falava de outra coisa. Wellington! Wellington: O assassino de Realengo! Nos jornais: “Vítimas de bullying não sei o que...”; “O assassino foi evidentemente vítima de bullying...”; “O assassino tinha histórico de problema mental...”.
O que ele tinha ou deixou de ter, não importa também. Inocentes morreram! E acabou! Nada mudará o que aconteceu. No entanto, o que chamou mesmo a minha atenção foi o fato de crianças e adolescentes terem morrido em nome de uma verdade. Mas a verdade, devido à qual morreram, não era deles.  Era a verdade de um verme, que roubou de outros vermes a possibilidade de achar que aquilo no qual acreditava era... “ verdade”! Eita democracia falha! Todo mundo tem direito de afirmar o que bem entende e pode criar “bem entendidos” débeis mentais que matam por algo inexistente. Wellington!

Veja! Eu não sou um monstro... só estou na vanguarda.

A pós-modernidade cria desses heróis: O herói trágico que surgiu a partir desse momento, segundo Kothe (1985 apud GIMENES; CARVALHO, 2007) [1], não é o maniqueísta que busca o lado nobre, como se dá com o herói trágico-clássico. É aquele que não crê na ética, nem em si mesmo, ou se crê, o faz de maneira distorcida, subvertendo o ethos dominante (a ordem dominante). É o herói pós-moderno! Que não se detém somente às narrativas brilhantes, como Lavoura Arcaica de Raduan Nassar; mas sai do mundo da ficção em direção à realidade, para o infortúnio, inclusive, de quem sequer pensou em viver certos acontecimentos manipulados por ele.
Esses são os fatos:
- Existem inúmeros desses “heróis” que defendem suas “verdades” e são capazes de matar por elas; mas, por outro lado, tão desejosos de serem Deus, são incapazes de perceberem a ficção que há no ideal que defendem.
- Há inúmeros imbecis que querem “ser coroados reis de si”  e inventam os melhores personagens (heróis trágico-clássicos e românticos) apenas para esconderem o pós-moderno doentio que há dentro deles. E quando acham que já deu, armam um plano para “fuder” com muita gente, como o fez Wellinton. Há também aqueles que não matam fisicamente, mas corrompem o espiritual, confudem-se e confundem, uma vez que chegam a acreditar na personalidade que eles mesmos inventaram.
Parece que temos, hoje, de fato, um terreno fértil, onde “germina a planta mais provável, certo cogumelo, certa flor venenosa, que brota com virulência rompendo musgo dos textos dos mais velhos” (NASSAR, 2004, p. 52) [2]. Afinal, a verdade, hoje, parece ser nada mais além do que ficção, uma mão cheia de símbolos canonizados, eternizados e tornados obrigatórios... e por isso mesmo perigosa!

 Veja! Eu não sou um monstro... só estou na vanguarda.

[1] KOTHE, F. R. O herói. São Paulo: Ática, 1985.
[2] GIMENES, Thais Regina Pinheiro; CARVALHO, Aécio Flávio de. Lavoura arcaica: o herói trágico moderno.  In: CELLI – COLÓQUIO DE ESTUDOS LINGUÍSTICOS E LITERÁRIOS. n. 3, 2007, Maringá: [s. n.], 2009, p. 1029-1036. Disponível em: www.ple.uem.br/3celli_anais/trabalhos/estudos.../pdf.../109.pdf -. Acesso em: 12 jan. 2010, às 22:16h.

 Descobri-me uma puta imoral!




Ao mesmo tempo em que traça fronteiras e desenha mapas cognitivos, estéticos e morais, a sociedade converte em estranhos os que a ela não se adequam (BAUMAN, 1998)  [1]. Por isso, durante muito tempo, tivemos submerso nesse processo civilizatório um homem constituído na renúncia ao instinto individual (FREUD, 1930) [2] e focado naquilo que Nietzsche (2001) [3] chamou de instinto de rebanho no indivíduo, visando sempre o bem coletivo, o bem para a sociedade.
Em sua versão pós-moderna, a modernidade, segundo Bauman (1998), encontrou sua pedra filosofal a partir do demasiadamente humano reclamo do prazer, que tolera uma segurança individual pequena demais. Temos, pois, na contemporaneidade, um novo perfil humano que cria (e isso lhe cabe muito bem!) novas formas de lidar com e nas relações interpessoais.


Como?
O que eu disse mesmo?
Em outras palavras: A sociedade criou padrões tão “porcos” de sobrevivência hipócrita que, durante muito tempo, todos aqueles que não seguiam seus ditames eram marginalizados, acusados de imorais,  loucos ou sei lá o que. Seguindo regras, as pessoas tendiam à obediência à mesma coisa e acabavam comprando as mesmas brigas, falando e agindo da mesma forma, renunciando ao que realmente queriam fazer em nome de uma moral sem moral.
Olhando para isso, acabei de ver: Eu escrevi que as coisas eram de um jeito e que, nos nossos dias, são de outro. Ora, ora, como se hoje as coisas realmente tivessem mudado. E o pior é que eu disse que elas mudaram no meu Trabalho de Conclusão de Curso, para o qual estudei sobre uma tal “Pós-modernidade”. E ninguém viu! Talvez eu tenha errado lá, ou tudo esteja errado de fato, mas, de FATO, nada evoluiu da forma como eu afirmei.
Hoje, podemos ter um grito de liberdade mais disfarçado. Aêêê! O negro se acomoda na poltrona de um branco filho da puta que lhe roubou seu posto por direito durante séculos. A mulher bate revoltada na cara de um macho retardado e lhe diz que quem banca e banca na casa é ela agora. O homossexual consegue e briga pelo direito de chegar ao pai, ao trabalho e à escola falando de sua OPÇÃO sexual ou que foi “comido” pelo colega de mesmo sexo, curtiu e que quer virar “homo” a partir dali. Além disso, todos pregam suas verdades e, como diz um texto que li outro dia, mas não lembro de quem, nenhuma delas se deixa dominar. Vê lá, né?!  Parece que as coisas são bem diferentes no meu século.
Diferentes?! “Os cambaus”! Nada dessa PORCARIA a que chamamos “vida social” mudou! Todos fazem a mesma coisa; dizem as mesmas “lorotas” sem sentido; compram as mesmas coisas que ficarão mofando nos armários ou servirão de letreiro para o “Venha até a mim. Sou legal!”; beijam sem vontade do mesmo jeito; “trepam” só para satisfazerem aquele quê de animal que o ser humano tem em si e ao qual faz questão de dar “moral”; etc. Ninguém quer ou pode satisfazer suas vontades racionais, conscientes, porque (Vejam só!) são “conscientes” de que as consequências da desobediência à tentaculosa “vida social” são rígidas.
E, nos bastidores, temos: aquele negro que posa de “fodão”, bota banca e só contrata negros para os encargos de responsabilidade da empresa que ele comanda. A mulher que perde sua feminilidade, quer produzir filhos à moda “independente”, quer ter três peitos (Ah, Ângela Bis... Bis o que? Que se dane!), age como vadia e, não sei por que, frustrada, diz que os homens não prestam. O homossexual que “pinta” de corajoso, de real merecedor do ouro capitalista e da nova bolsa (A de Inclusão da população LGBT) do Governo Made in Lula (Opa! É Dilma agora... Dá no mesmo!) porque consegue lutar contra o preconceito. O pobre também merece, então! A mulher também! Eu também, ué! Ou não?!
“Segurança individual pequena demais”!
Então: Mudamos, não é? Não! Tudo permanece da mesma forma. Os sujeitos mudaram e o “ao que obedecer” também mudou. Mas as coisas acontecem de igual modo.
Todos seguem uma modinha (A do seu egoísmo sádico). Vai ver, Moral é isso: Modinha. “Dar moral” não seria “dar margem a algo”, ou “aceitar alguma coisa”? Então! Logo, imoral, hoje, deve ser o sujeito que não compra o carro do ano; a mulher que casa por amor ou abdica de trabalhar fora para zelar pela educação dos filhos; o carinha que não trai a namorada (ou namorado); o profissional que é “o cara” mas não humilha quem não é; aquele que diz o que pensa; o adolescente que não tira fotografia com o dedo no nariz, óculos coloridos e sem lente, calça colorida e não é assexuado; etc. e o DIABO!
É daí que vêm os vários produtos desse laboratório social, passados por lavagens cerebrais diárias. Os que não resistem à “quimioSÓCIOterapia” piram, coitados, são os fraquinhos, são as frutas podres da cesta, os biscoitos quebrados do pacote de proezas! Os imorais!
RÁ! Descobri-me uma puta imoral!



[1] BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar da pós-modernidade. Tradução: Mauro Gama e Cláudia Martinelli Gama. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
[2]  FREUD, S. Mal estar na civilização. Trad. J. O. A. Abreu. Rio de Janeiro: Imago, 1930.
[3] NIETZSCHE, F. A Gaia Ciência. Trad. Paulo Cézar Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.