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terça-feira, 15 de novembro de 2011



Não vêm de longe essas perguntas que atormentam; vêm de há muito e daqui do lado, dessa abertura monstruosa neste peito consumido. Quem achar o sopro sobrenatural um equívoco é porque ainda não sabe que a obscuridade é a principal marca de nossa origem. Como já disse Hermann Hesse, outrora, proviemos do mesmo abismo. E é para o mesmo fim que caminhamos.
Esta terra amassada pelos meus pés e mãos jaz no meu suor. Este céu azul e branco é capturado e aprisionado e eternizado num flash de olhos cansados que não desistem. Este odor de almoço servido, pronto, fácil, apodrecerá. Repudiamos o acre, mas salivamos com a lembrança do nosso paladar desdenhoso e falso.
Só não conscientizamos a origem, porcos que somos, reles que estamos. É o nosso mistério a encandear-se, a desdobrar-se, a transfigurar-se, a suicidar-se e a refazer-se, sempre novo, sempre possesso.
Não vêm de longe, vêm de há muito, essas perguntas que atormentam...

domingo, 30 de outubro de 2011


Superfície

Temos alguns monstros aqui dentro e, ora sim ora não, eles nos consomem.
Na superfície, nada de mar revolto; mas o vazio de palavras aqui dentro denuncia-nos. Crise. Pane. Nada pior do que não conseguir saber o que de fato sentimos.
A Ressaca age de dentro para fora, minuciosamente.
Amiudadamente.
Monstros interiores. Monstros interiores.
Mitos. Placebos de uma vida mal sentida.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011


Blankness


 Tudo quanto somos é feito do vazio ensimesmado que nos dá forma. Percorremos limites e corremos pelo desconhecido. E o que são o limite e o desconhecido senão um vazio que queremos preencher?
Tudo quanto há de resposta que buscamos está em nós. Apenas não buscamos formas de ouvir, porque há muito ficamos surdos. Apenas não enxergamos, porque o espelho de nossos dias embaçou na manhã mais fria do ano: aquela em que nos perdemos de novo para nunca mais...
Somos criadores, não apenas criaturas; e vivemos de moldar verdades e de nos perder, porque somos demasiadamente desconhecidos para nós mesmos e, sobretudo, para os outros. Somos o nosso próprio limite e o vazio sobre o qual queremos falar. Não o fazemos porque não sabemos. E, aos outros, somos nada mais que detalhes de sua tosca sobrevivência. Pronunciamos apenas as ínfimas reminiscências das palavras que aprendemos, mas que não sabem traduzir o que deveras nos incomoda.
Tudo quanto nos dá forma é feito do vazio ensimesmado do que somos. E toda palavra que há nas nossas tentativas de tradução pessoal são incoerências do conflito que nos move.


P.S.: O conflito que nos move é o que há do nosso Eu resoluto tombado naquele vazio, o da nossa ignorância sobre o sentido de nossa estadia no inferno do que somos e para que viemos.

sábado, 28 de maio de 2011

               Uma resposta para Balta
             

  Eu já vivi mais de 40 anos. Conheço embaraços, micos, sorrisos, trejeitos. Mas ainda desconheço. Tenho mais de 20 anos, mas já nasci velha. Não existem soluções plásticas quando a idade é uma marca dentro de nós.
Tantos permanecem agitados por dias após uma balada. Outros tantos permanecem cativos após uma grotesca negação de amor. Muitos outros, dementes após um beijo roubado. E o vazio, aqui do lado, é a maior parte do que sou, na indiferença.
Minha alma – se é que eu acredito mesmo nisso! – tem sono, pede cama, fuga para um refúgio que não tem tempo de surgir e me fazer sumir. Importo-me mais com os interesses na minha responsabilidade: Quase nunca chego atrasada ao trabalho. E importo-me menos com aquilo que poderia me fazer gargalhar de gozo. Sinceramente, eu sobrevivo!
Acho que a maturidade tem muito disso. Ser adulto é ser tedioso; é encarar o nada; beijar o ácido e ainda ter que sorrir aos clientes diversos que aparecem nos dias (in) úteis em que temos que servir para alguma coisa. Numa transição, surgem perguntas sem respostas exatas e constantemente assistimo-nos com os braços envoltos numa frágil coluna enquanto o resto de nosso corpo, estendido horizontalmente, como morto, balança, quase solto, em direção ao que tememos e tentamos negar.
Contudo, mais cedo ou mais tarde, chegamos àqueles 40 anos. Estamos quase lá.  E já sentimos às vezes o gosto do desespero, resquício ainda dos Dramas que protagonizamos há um tempo. Mas o que predomina em mim agora é o trágico do não se importar. Se me negam o amor, durmo bem do mesmo jeito. Se me roubam um beijo, bocejo. Se quero sorrir, espero. Se pareço viver, desespero. Parece mesmo que todo o suposto equilíbrio da maturidade está na indiferença, o porquê da sobre ou subvivência que, não sei por que, nos faz mais respeitados.

sábado, 23 de abril de 2011


Os mortos do mundo



Exatamente quando eu lia sobre rostos mortos de lótus que desciam num redemoinho, numa correnteza que banhava uma certa, porém vaga, margem... e sobre a qual, esmagando mais rostos mortos de lótus, corria aquele que temia a lua, ou melhor dizendo, o que ela podia revelar-lhe, que ele me fez a pergunta:
– Já teve uma crise existencial?
Eu voltei a acompanhar o cara correndo; descobrindo que, onde havia muros, descortinavam-se mais árvores, flores e arbustos; e chegando onde o córrego silente, mas errante, desaguava num mar sem nome...
– O que você acha? – Respondi finalmente. Várias! Inúmeras! Vivo em constante crise, desde a consciência (ou ocorrência) remota do "existir" e "ser depois".
E senti naquele momento que o homem que corria e encontrava sua carrasca voltava seus olhos para mim. E o outro também... Eu sabia que do outro lado do país, não somente pela rede magnética ou de sei lá o que, ele entendia, porque também, como eu, já havia esmagado rostos mortos em flores de lótus e corrido por caminhos que nossa mente tornavam mutáveis. Sabia qual seria minha resposta, mas queria, talvez, como eu, saber se ainda tinha a mesma companhia.
“E para escapar a essa coisa medonha, atirei-me sem hesitar nas águas pútridas onde, entre muros cobertos de algas e ruas submersas, os túrgidos vermes marinhos devoram os mortos do mundo.” (LOVECRAFT, 2010, p. 43). [1]


[1] LOVECRAFT, H. P. O que a lua traz consigo. In: LOVECRAFT, H. P. O chamado de Cthulhu e outros contos. Trad. Guilherme da Silva Braga. São Paulo: Hedra, 2010.