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domingo, 29 de abril de 2012


O Albatroz



É desse céu indeciso que tomo forças para mergulhar,
Na proa de um barco
Ou no homérico oceano.
É a vida ou a morte que faz meu alimento.
É o mito que me persegue o que os pescadores temem.
Não eu!
Senhor unicamente do Azul, eu nunca fiz um ninho no pescoço de ninguém...
E persigo barcos unicamente pelo rastro de óleo de peixe que deixam para trás.

Mas não é o rastro nem o óleo... O Peixe: isso é o que eu quero!
Não os obsoletos homens que guiam os barcos que me atraem
Nem ainda os pescadores que têm, cada um, dentro de si.
A corja humana não faz minha prisão.

Sou dono da pura magia do vôo;
do gosto do mar;
do azul do céu.
E também da magia do mar,
do gosto do céu e do azul do vôo.

Ainda uma vez mais, quero-me.
Por isso não tenho buscado tempestades
Nem ridicularizado as flechas que me buscam.
Tenho, eu mesmo, me exilado no chão.
Tenho, eu mesmo, impedido meu vôo...
Ainda uma vez, para que eu possa, a mim, encontrar.

Aves gigantes também precisam de chão.
E o amor é uma desculpa cara.

domingo, 22 de janeiro de 2012

            Nota de Esclarecimento aos que se limitam

             
            Isto não sou eu. Meses depois, encontro-me a me estranhar em cada coisa que escrevi. Sou Pássaro em renovação. Ascendo à liberdade e me posto no Ideal que busco. Se não me encontro, se me perco no que fui, é sinal de que me achego àquilo que me espera e do qual necessito. E posso fazê-lo em tempos mórbidos ou ensolarados, em questão de dias ou anos, sempre que necessário ou conveniente. Sou livre, do jeito que acredito ser. Sou L’oiseau.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

 É isso!


Recolher as roupas. Guardar as garrafas. Quebrar as taças. Lavar o sangue. Pegar as malas e fazê-las. Experimentar o pó sobre a cama não usada e sentir o cheiro do sofá há muito vazio. Beijar as camisas. Suspirar pelas lembranças. Recordar. Depois esquecer. Dar as costas. Apagar arquivos. Escrever qualquer coisa num papel sujo. E se despedir.
Hora de partir. De novo e sempre. Isso é a vida. E temos de vivê-la.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

“Você sabia que havia um Lobo nesse Homem”


Eu sempre soube do Homem nesse Lobo também.
Nenhum lobo passa por cordeiro. Nem por Homem.
E nenhum homem que se quer lobo in natura pode sê-lo.
Sempre soube que havia um lobo nesse homem.
E é esse homem que o lobo faz Homem. E mais Lobo quando quer.
Não há retorno ao selvagem quando este jamais fora abandonado.
Então seja selvagem! Seja você. Mas não seja menos do que tem sido nem mais do que ao que tem se proposto.
Qualquer peso faz de um lobo uma presa. Ou do Homem, um deus.
Não seja presa. Não seja deus. Seja Homem. Seja Lobo. Seja Você.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Vulnerável

Sistema em pane. Entre discos rígidos e vinis, uma cláusula para a música. Vírus.
Um pouco de café; e a chuva lá fora; e um quê de azul que sobrevive em mim; e ainda o outro lado de Júpiter fazendo minha boa expressão nos últimos dias.
 Papéis ocupando meu espaço na cama expulsam-me para a rede, mesmo nas noites frias. E, por mais que não pareça, a rede é tão grande... No embalo para o sono, dentro de mim, um silêncio ofegante, cheio de mãos que me tocam e fecham meus olhos para mais um sonho com Sandman.
No beco, entre meu quarto e um muro sujo que já ouviu muita coisa no seu poder em gigas, mais papéis descartados que tocam músicas de ninar para mais uma roda-punk.
Carregando... Erro!
Sujeira no disco, no quarto e fora dele. Não há formatação para uma máquina humana que respira medo. E, embora o outro lado de Júpiter faça parte da visão desse ponto referencial que sou eu, há sempre o medo de que a rotação mostre um coringa rasgado em decepções.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

        O outro lado de Júpiter num café a dois



        É como respirar um ar frio depois de horas abafadas embaixo de um lençol. Como dormir na varanda numa noite de luar e acordar aquecido pelos raios solares. Nenhuma obrigação. Apenas desejo dos sentidos. Apenas necessidade da alma... Tudo o que tenho sentido é isso: Vida e Deus, no Amor.

sábado, 28 de maio de 2011

               Uma resposta para Balta
             

  Eu já vivi mais de 40 anos. Conheço embaraços, micos, sorrisos, trejeitos. Mas ainda desconheço. Tenho mais de 20 anos, mas já nasci velha. Não existem soluções plásticas quando a idade é uma marca dentro de nós.
Tantos permanecem agitados por dias após uma balada. Outros tantos permanecem cativos após uma grotesca negação de amor. Muitos outros, dementes após um beijo roubado. E o vazio, aqui do lado, é a maior parte do que sou, na indiferença.
Minha alma – se é que eu acredito mesmo nisso! – tem sono, pede cama, fuga para um refúgio que não tem tempo de surgir e me fazer sumir. Importo-me mais com os interesses na minha responsabilidade: Quase nunca chego atrasada ao trabalho. E importo-me menos com aquilo que poderia me fazer gargalhar de gozo. Sinceramente, eu sobrevivo!
Acho que a maturidade tem muito disso. Ser adulto é ser tedioso; é encarar o nada; beijar o ácido e ainda ter que sorrir aos clientes diversos que aparecem nos dias (in) úteis em que temos que servir para alguma coisa. Numa transição, surgem perguntas sem respostas exatas e constantemente assistimo-nos com os braços envoltos numa frágil coluna enquanto o resto de nosso corpo, estendido horizontalmente, como morto, balança, quase solto, em direção ao que tememos e tentamos negar.
Contudo, mais cedo ou mais tarde, chegamos àqueles 40 anos. Estamos quase lá.  E já sentimos às vezes o gosto do desespero, resquício ainda dos Dramas que protagonizamos há um tempo. Mas o que predomina em mim agora é o trágico do não se importar. Se me negam o amor, durmo bem do mesmo jeito. Se me roubam um beijo, bocejo. Se quero sorrir, espero. Se pareço viver, desespero. Parece mesmo que todo o suposto equilíbrio da maturidade está na indiferença, o porquê da sobre ou subvivência que, não sei por que, nos faz mais respeitados.

sexta-feira, 27 de maio de 2011


Uma moeda por um ideal


 Já tentei pegar moedas numa fonte nova de desejos velhos. Crentes [1] jogaram-nas lá – o que, aparentemente, não parece absurdo, mas é. Cogitei um imã num fio de nylon talvez, ri até – Irônico? –, mas a falta de tempo não me permitiu furtá-las.
As pessoas têm total direito de sonhar ou fantasiar – Como queiram! Mas eu também tenho meu direito de dizer o que penso. Que sonhem, fantasiem, que fujam da realidade, que neguem os fatos, se frustrem e se matem, mas que não comprem o que não existe!
Iludidas pela imagem – na mídia ou nos ecos de nosso inconsciente! –, todas elas, crentes da perfeição, jogam ainda não somente moedas em reais fontes de desejos, mas jogam sua existência, o que são, em débeis fontes de promessas de ideais, cuja real origem ninguém sabe.
O engano parte exatamente da capacidade que as pessoas têm de serem tão desumanas, de se negarem e de negarem que, delas, mais nada há além do que está nelas mesmas: O homem é o que é. A mulher é o que é. Ele é quem é. Ela, quem é. E não pensem as pessoas que o desejo de um está em encontrar o outro, oposto ideal a lhe completar. Inacabados são todos aqueles que não veem que buscam seu próprio ideal, ou o ideal que são. É por isso que, no amor, como diz Nietzsche, os sexos se enganam mutuamente.
Frustrados são todos os que querem a realidade daquilo que apenas pode existir no imaterial, no símbolo presente nos olhos fechados, apertados na crença da realização do que não passa de um capricho numa moeda contaminada – e da maior prova de sua descrença no tanto que são desumanos para consigo mesmos, sobretudo quando lançam na fonte moedas que certamente lhes serviriam mais na economia forçada pela próxima crise do país.

[1] Aqueles que acreditam.

terça-feira, 24 de maio de 2011


Um texto breve para um sentimento mais breve ainda



O amor é como a fé: nada o força [1].
É assim que sentimos e nos tornamos conscientes do fato de amarmos até mesmo àquilo ou a quem fugia às regras, às nossas próprias regras, no sentido de sequer sabermos o porquê da existência do próprio sentimento e do jogo que armamos para conter seu nascimento. Tão outro e tão apaixonante: Isso poderia valer para todos!
Fé não se explica. Amor também não. E a nossa própria consciência também, às vezes, nos foge à compreensão. Só nos sentimos crentes e amantes e conscientes... mesmo quando a insanidade parece a melhor explicação.


[1] Frase original de Schopenhauer: “A Fé é como o amor: nada o força”.

sábado, 14 de maio de 2011


Um café, uma tarde e algumas reflexões


As promessas não precisam ser feitas para que sejam desejadas, assim como não dependem somente de quem as fez para que sejam cumpridas.
As pessoas não precisam morrer para sentir o vazio, assim como o vazio não precisa da morte para existir e fazer estragos.
O ontem não precisa do amanhã para ser lembrado, assim como o agora sempre será levado, independentemente do nosso desejo de esquecê-lo na casa abandonada depois de mais uma mudança.
A arte não precisa do seu gosto para que ainda assim seja arte, assim como o poeta não precisa ter amado para falar de amor.
A vida não precisa ser conhecida para ser vivida, assim como há quem saiba falar dela sem sequer ter posto a ponta do nariz para fora de si mesmo a fim de vivê-la.
Amores nem sempre significam dores, assim como aqueles que nunca sofreram por amor costumam associar o sentimento ao sofrimento.
Homens são capazes de atitudes nobres, assim como as mulheres, por mais que não admitam, têm uma habilidade muito grande para agirem como “vacas”.
Saudades não precisam ser gritadas para que provemos que são sentidas, assim como eu não preciso sofrer para que eu sinta sua falta.
A ausência de luz nem sempre indica a presença das trevas. Ela pode simplesmente estar indicando um interruptor temporariamente desligado e um quarto fechado, assim como a madrugada, quase repentinamente, consegue se transformar numa linda manhã de sol.
A presença da luz nem sempre significa bem-estar, assim como 8 horas da manhã não significam a ausência da madrugada, que ora persiste nas manhãs nubladas e frias.
O silêncio nem sempre significa palavras caladas, assim como uma chuva de verbos e pronomes não significam amor nem maldições.
Uma estante de livros não significa intelectualidade, assim como a falta de diplomas não significa ignorância.
Solidão pode não significar ausência do outro, assim como o outro nem sempre significa companhia.
Eu posso não acreditar em nada disso, assim como não farei nada para que as coisas sejam consertadas.
Nem sempre realizar um sonho significa sair à luta. Certas coisas caem ao nosso lado, no sofá: uma puta, uma garrafa de vodka, nossa carteira vazia... e o Amor!
Sobriedade nem sempre significa exatidão ou verdade, assim como “Eu te amo!” dito sob efeito alcoólico ou desespero pode ser verdade.
Pensar demais nem sempre significa conhecimento. Sentir às vezes é a melhor forma de consciência. A maciez de uma pétala, o sabor de um fruto, a fúria de um Rock somente podem ser conhecidos quando usamos nosso corpo; e, deste, nada sabemos, de fato.
O café nem sempre corta o sono, assim como o cigarro nem sempre é fumado com desejo ou nos acalma; às vezes, está aceso por hábito e reflete ainda mais nossa ebriedade.
Não precisamos um do outro. Assim também como isso não quer dizer que tenha que haver a necessidade para que haja o amor. E se você não sente saudade, não espere que eu revide dizendo a mesma coisa.
Hábitos nem sempre significam personalidade, assim como vestimentas nem sempre dizem quem nós somos, afinal, por trás de um colarinho, pode estar um infame; por trás de um trapo, pode estar um verdadeiro homem.
Parece mesmo que, por trás das nuvens, sempre estará o Sol. Assim como se sabe, sempre, que uma bela tarde e um arco-íris no céu podem ser encerrados por uma noite chuvosa.
Mas tudo, de alguma forma, é. E isso basta para que saibamos nos olhar na próxima vez em que nos encontrarmos.