Mostrando postagens com marcador O eterno-retorno. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador O eterno-retorno. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 15 de novembro de 2011



Não vêm de longe essas perguntas que atormentam; vêm de há muito e daqui do lado, dessa abertura monstruosa neste peito consumido. Quem achar o sopro sobrenatural um equívoco é porque ainda não sabe que a obscuridade é a principal marca de nossa origem. Como já disse Hermann Hesse, outrora, proviemos do mesmo abismo. E é para o mesmo fim que caminhamos.
Esta terra amassada pelos meus pés e mãos jaz no meu suor. Este céu azul e branco é capturado e aprisionado e eternizado num flash de olhos cansados que não desistem. Este odor de almoço servido, pronto, fácil, apodrecerá. Repudiamos o acre, mas salivamos com a lembrança do nosso paladar desdenhoso e falso.
Só não conscientizamos a origem, porcos que somos, reles que estamos. É o nosso mistério a encandear-se, a desdobrar-se, a transfigurar-se, a suicidar-se e a refazer-se, sempre novo, sempre possesso.
Não vêm de longe, vêm de há muito, essas perguntas que atormentam...

sexta-feira, 13 de maio de 2011


Do inferno...



Realmente somos vítimas do eterno retorno, do eterno “por vir” que sempre viaja ao passado antes de nós e captura nossas velhas vestes para que tornemos a experimentá-las quando parecíamos totalmente desapegados.
Nos outros nascidos de mim, habitantes de mim e sobreviventes de minhas toscas reminiscências, sinto o inferno que sou eu.
Uma data esquecida é suficiente para uma vibração. Um passado adormecido é o mesmo que oportunidade de vida, passagem para o surgimento de uma crença de que algo morreu. Mas pequenas coisas acontecem ou são ditas e recordadas e sentidas... e podem nos provar que o inferno de que viemos é o mesmo que somos e que permanece em nós, chamejante, agressivo.
Eu em remendos. Eu, vil. Eu, caos. Eu, infernal. Um fruto. Um furto. Eu, réu confesso de infâmias. E o outro em mim. O inferno no Outro. O outro, do inferno e além dele. Um estigma.
Em si. Para si. E depois. Ontem. Amanhã. O primeiro existir. O eu sem fórmulas, sem compreensão, sem porquê. O coração partido. O inferno vivido e sentido. E o desatino a arder na alma que nega e renega a si própria, marca de um pêndulo, de um caos ensimesmado advindo de um inferno plantado e cultivado, nunca ceifado... um inferno que está em mim e que se confunde com quem eu sou...
Realmente somos vítimas do eterno retorno. Vestimos às vezes o que não mais queríamos. E vestes velhas nem sempre caem bem. Tornamos a experimentar flores pútridas. Lambemos o entorno saído das chamas do fruto do nada de que viemos e ao qual retornamos e retornaremos sempre quando estivermos longe de nós, em um vacilo. E vacilos são infernais... e reversíveis!
Mas a recusa também está em mim! E sou eu. Recuso, pois, a máscara, as velhas vestes, o sabor que não é meu ou o que é provado de mim sem permissão. Recuso os dias, os vacilos, os sentimentos de outrora e as enganações da suposta resistência destes. Recuso a dor, a decepção. Recuso você de novo em mim. Recuso o eterno retorno. Quero correr no entorno do que sou e chegar ao centro de mim; no entorno do inferno que sou eu e por mim apenas me queimar... sem pesares e com equilíbro, na permissão de que o novo se achegue e que me faça bem e que eu o queira. Porque eu sei que o inferno, de fato, é aquilo que eu faço dele (BUKOWSKI, 2010) [1] 

[1] BUKOWSKI, Charles. Pulp. Porto Alegre: L&PM Pocket, 2010.

quinta-feira, 21 de abril de 2011


"E se um dia ou uma noite..."



"Eu acredito que aquilo que não nos mata nos torna mais... estranhos."
Uma frase certa do arquirrival do Batman. Coringa é um louco, porém sábio.
Os que experimentam de fato certos acontecimentos na vida sabem bem o que é se tornar mais estranho. Eu disse “os que experimentam de fato”. Muitas pessoas julgam ter experiências, mas acredito que estas têm muito mais a ver com marcas pós-acontecimentos, marcas que não nos deixam ser mais os mesmos. Isso tem, eu acho, certa conexão com o “eterno-retorno” a que Nietzsche fez referência (Alguém aí para me confirmar ou corrigir?).
Diz o tal filósofo que as coisas em nossa vida se repetem, justamente porque não conseguimos evitar que as impressões positivas e negativas que tivemos realmente permaneçam no passado. Elas vêm à tona nas novas coisas que nos acontecem e tanto tornam estas sequências possíveis quanto as futuras:
"E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: essa vida, assim como tu a vives agora e como a viveste, terá de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes; e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indizivelmente pequeno e de grande em tua vida haverão de retornar, e tudo na mesma ordem e seqüência..." (Aforismo 341 de A Gaia Ciência)
É por isso que eu ando assim hoje: Belicosa! Se não tenho o que atacar, ataco a mim mesma. Talvez seja essa uma tendência natural da humanidade e, pouco a pouco, descubro em mim o humano acre e áspero que eu neguei ou reprimi durante um relevante tempo de sobrevivência.
E ainda uma vez, parece que o ouço dizendo: "You are just a freak, like me..." (CORINGA).